Redes tecno-econômicas de poder

A Terceira Revolução Industrial ou Revolução Tecno-científica é caracterizada pela etapa de profundas evoluções no campo tecnológico desencadeada principalmente pela junção entre conhecimento científico e produção industrial, ocorridas depois da Segunda Guerra Mundial. O processo industrial pautado no conhecimento e na pesquisa caracteriza essa etapa ou fase produtiva: todos os conhecimentos gerados em pesquisas são repassados quase que simultaneamente para o desenvolvimento industrial. Nesse contexto, economista Fritz Machup iniciou os estudos sobre o o efeito das patentes na pesquisa (The production and distribution of knowledge in the United States, 1962). Ele foi um dos que iniciou a discussão do conceito de Sociedade da Informação, também chamada de Sociedade do Conhecimento, vinculado ao discutível termo Globalização (de forma mais coerente Mundialização).

As grandes redes econômicas são projetadas como mega-redes flexíveis contendo as mais variadas competências e competitividades, os mais distintos fatores econômicos (conjuntos de mão-de-obra, reservas de matérias-primas, estruturas comerciais, industriais e financeiras e mercados) tornando países ou regiões nós dessas redes, retiram-lhes toda margem de autonomia e os convertem em um eficiente e previsível acessório, uma máquina viva, uma região modificada para assimilar um DNA corporativo.

O processo econômico da Terceira Revolução Industrial iniciou-se com o Estado, mas aparentemente encontra-se na situação de Firma-Estado, empresas e conglomerados econômicos com mais poder e dominação que as próprias políticas públicas nacionais oferecem. Foi a forma como planejaram a otimização das redes comerciais, alongando e potencializando seu espectro de atuação. Como o fazem? Desmontando cadeias produtivas nacionais antes protegidas e subsidiadas pelo Estado, afetando programas nacionais de desenvolvimento tecnológico necessários a estabelecer a conexão das três fases (invenção-inovação-difusão). Esses programas (coletivo de projetos) recebem vários nomes: incubação de empresas, redes produtivas de conhecimento, redes (complexas) de inovação, EBT – empresas de base tecnológica, KIBS = knowledge intensive business services, IESICS = infra estrutura e serviços de informação e comunicações. Nota-se que tais programas são sustentados por conglomerados (visando seu expansionismo capitalista) e não mais pelo Estado (que deveria promover o expansionismo sócio-econômico).

São todas redes produtivas de conhecimento ou redes tecno-econômicas (Callon, 1992) com alta complexidade para serem estruturadas, articuladas, fazer-se o enfrentamento das instabilidades para consolidá-la e mantê-la. Isso exige um continuado processo de negociações, de um continuado alinhamento de interesses entre todos os atores envolvidos Se, em algum momento, estesinteresses deixam de estarem alinhados, a rede se desestabiliza e a trajetória cessa. Manter os interesses de todos os atores alinhados ao interesse do construtor da rede exige muita persuasão e convencimento por parte do ator construtor.

A reflexão desafiadora proposta por Fernand Braudel (1987) em olhar-se além da economia de mercado e acompanhar o capital até o andar de cima, no qual ele se encontra com o poder político com seus segredos sobre a obtenção dos sistemáticos lucros tornou-se uma questão contemporânea bem mais complexa: o andar de cima potencializa a acumulação pela revolução vigiada da tecnologia da informação e pela possibilidade de fragmentação das cadeias produtivas globais.

Como fica a força de trabalho? Os atrativos são conhecidos: os trabalhadores ganham menos e trabalham mais, a fiscalização é discreta e os lucros podem passear à vontade nos fluxos financeiros informatizados antes de voltar ao sólido terreno pátrio da matriz dessas redes. Quase uma abordagem darwinista – seleção natural das espécies ou das qualificações, uma higienização dessa força de trabalho com processos estruturados de exclusão sócio-econômica.

Como olhar direcionado de forma mais específica para a Bahia e Região Metropolitana de Salvador, entende-se que a automação junta com as novas técnicas de reengenharia geraram desemprego, o número de trabalhadores estáveis vem caindo gradativamente, aumento do emprego informal e precário. Grande parte dos desempregados tem se constituído de jovens que ingressam no mercado de trabalho, forçando boa parte dos recém formados a aceitar empregos em atividades que requerem um nível de instrução inferior aos possuídos por estes mesmos jovens. Ao que parece, a tendência será a menor criação de postos de trabalho pelas grandes corporações uma vez que, a automação e a informatização da gestão aliada aos processos de seletividade de investimento, características da nova dinâmica, vão gerar cada vez menos empregos por dólar investido, inferindo-se o cenário de: (a) geração cada vez menor de empregos formais; (b) urgência na flexibilização contínua da força de trabalho e (c) exploração crescente do trabalho informal nas atividades mais simples das cadeias produtivas.

Referências


BRAUDEL, Fernand. A Dinâmica do Capitalismo. Rocco, 1987.

CALLON, M. (1992), The dynamics of Technoeconomic Networks. In Coombs, R.; Saviotti, P. e Walsh, v., (eds.) Technological Change and Company Strategies. London: Academic Press, pp. 72- 102.

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Publicado em by Stricto Sensu em ARTIGOS

One Response to Redes tecno-econômicas de poder

  1. JORGE GERALDO DE JESUS ROSARIO

    é gratificante para todos nos que escolhemos a UNIFACS como instituição de ensino superior e atestamos este produto que torna visivel o interesse social de todos os discentes que oportunamente termina um mestrado ou doutorado. parabens…sempre…

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