Envelhecimento populacional no contexto urbano

 

As projeções para o início do século XXI indicam que 82% dos idosos no Brasil residem nas cidades, o que caracteriza um fenômeno urbano que tem total implicação sobre a qualidade de vida do idoso, por este sofrer as ações determinantes da própria organização das cidades. Dessa forma é importante conhecer melhor a velhice, não necessariamente no contexto da saúde física, mas especialmente na perspectiva da cidade, já que o envelhecimento populacional foi também influenciado por todo processo histórico da medicina urbana, através de medidas político-sanitárias no sentido de elevar o nível de saúde da cidade como forma de poder (FOUCAULT, 2007), o que contribuiu, em certa medida, para a longevidade.

Os estudos atuais definem o envelhecimento como um processo amplo, multifatorial, multidimensional, dinâmico e progressivo, onde há modificações tanto morfológicas como funcionais, bioquímicas, psicológicas e sociais que determinam progressiva perda da capacidade de adaptação do indivíduo ao meio ambiente e ao próprio processo de envelhecer, ocasionando maior vulnerabilidade e maior incidência de processos patológicos, que termina por levá-lo à morte. (CARVALHO FILHO; ALENCAR Apud PAPALÉO, 2000, p.01)

Já a palavra velhice, segundo Pickles et al (2000), é de difícil definição. Está muitas vezes relacionada à presença de espírito e às idades cronológica (tempo de vida desde o nascimento), psicológica (relacionada às condições mentais e cognitivas do indivíduo) e biológica (referente ao ritmo das manifestações biológicas). Entretanto variável cronológica é um dado determinante no conceito de velhice, principalmente para efeito de lei, onde em países desenvolvidos considera-se a partir dos 65 anos e, para os países em desenvolvimento, a partir dos 60 anos, como é o caso do Brasil.

No Brasil, os idosos dispõem da Lei Nº 10.741, instituída em 1º de outubro de 2003, o Estatuto do Idoso, destinado a regular os direitos assegurados às pessoas com 60 anos ou mais; além da Lei nº 8.842, de 4 de janeiro de 1994, homologada em 1996, a qual trata da Política Nacional do Idoso. Apesar destas leis serem consideradas como uma das mais avançadas do mundo, os direitos dos idosos carecem de maior atenção e investimentos públicos, inclusive no que se refere ao direito à cidade, a exemplo do direito à habitação digna, gratuidade dos transportes públicos, ao exercício de atividade profissional, lazer, bem como à acessibilidade aos serviços que respeitem sua peculiar condição de idade de forma a promover qualidade de vida urbana. Propondo explicar o fenômeno do envelhecimento aproximando-o ao contexto urbano, cabe aqui citar algumas teorias sociais: dos papéis, desengajamento, continuidade e dos eventos e estresse da vida.

Teoria dos Papéis defende que a manutenção da atividade, mesmo com as sucessivas mudanças de papéis na vida, é essencial para uma velhice saudável. Essa teoria ressalta que “as pessoas se comportam de acordo com as expectativas dos outros” (NAHEMOW; POUSADA, 1987). Pode-se inferir, com base nesta teoria, que também a cidade, enquanto espaço físico, determina aspectos do comportamento do sujeito; onde, no caso do idoso, pode favorecer um comportamento de isolamento social, em virtude das inadequadas condições das ruas e passeios públicos, por exemplo, levando o idoso à perda da manutenção das suas atividades e da sua autonomia, com consequente evolução para a instalação de uma incapacidade e dependência, o que pode gerar mais isolamento e exclusão.

Com base numa análise weberiana, a cidade, enquanto dominação racional, orienta os indivíduos no sentido da ação social, ou seja, da conduta humana dirigida a terceiros (WEBER, 1999). Neste sentido, numa sociedade capitalista institucionaliza-se e impõe ao indivíduo um comportamento de desencaixe da ação familiar. Ou seja, o que modifica a cidade é o capital, onde há um padrão imposto, uniformizado, para atender ao próprio capital. Assim, se algo não atribui um contexto de valor para o capital, este o abandona. Dessa forma, a cidade orienta o indivíduo para diversas mediações, podendo gerar esquadrinhamentos, o que se aproxima à teoria do desengajamento.

Teoria do Desengajamento (Elaine Cumming e Henry – 1960) afirma que na velhice se dá três tipos inevitáveis de separação: física (declínio de energia física); psicológica (desvio de preocupação para outrem) e social (diminuição da interação social com a família, amigos, atividades e ambiente). Propõe que este seja um momento de afastamento social gradativo, sendo iniciado pelo próprio indivíduo ou pelo sistema (aposentadoria). Opõem-se à teoria da atividade justificando ser um sacrifício para um indivíduo idoso manter-se ativo e participante por toda a sua vida.

Não se pode afirmar que o desengajamento seja moral e eticamente correto. Sabe-se que a ausência de atividades pode levar o homem à depressão e esta à morte, confirmando que um baixo nível de engajamento está relacionado com um baixo nível de satisfação. Assim, não estar engajado no ambiente onde se vive (neste caso a cidade) pode interferir negativamente na qualidade de vida do indivíduo que envelhece. Entretanto, envelhecer nas cidades pode significar maior exposição à violência, insegurança, medo, quedas e exclusão, principalmente em algumas cidades dos países periféricos e semi-periféricos.

Uma teoria intermediária entre as duas anteriores, a dacontinuidade, afirma que as pessoas mais velhas tendem a comportar-se em um padrão que foi estabelecido antes da velhice, abandonando ou não suas atividades com base na sua condição de saúde e na organização do ambiente em que vive.

Já a Teoria dos Eventos e Stress da Vida explica o status do idoso em diferentes contextos: nas sociedades estáticas, o idoso tem alto status, com tendência à diminuí-lo com o advento de mudanças sociais (teoria de Ogburn e Nimkoff); nas sociedades agrícolas, os idosos têm mais status e respeito que em sociedades urbanas (teoria da modernização de Cowgill e Holmes); e noprocesso de modernização, o status do idoso tende a desaparecer proporcionalmente ao atravessar as diferentes fases de aceleração deste processo (teoria de Gilleard e Gurkan). Nesse contexto, a aposentadoria para o idoso pode representar, além de diminuição de renda, perda de status.

Todas essas teorias, então, somadas às características históricas e conceituais do processo de envelhecimento, influenciam no pensamento coletivo, criando mitos e atitudes diante da velhice, muitas vezes preconceituosos, altamente aceitos pela sociedade, até mesmo pelos próprios idosos, nas diversas áreas, inclusive no ambiente urbano. Assim, o urbano pode ser entendido como um “objeto ideológico” (CASTELLS, 2006), sendo função da conjuntura e da especificidade histórica.

Dessa forma, a velhice na sociedade moderna é cada vez mais marginalizada, caracterizando uma fase da vida com raros projetos pessoais e com um declínio importante da participação e convívio social, os quais podem ser intensificados pela estrutura urbana das cidades e pelos próprios interesses do capital.

Importante aqui ressaltar que tanto a “morfologia material” da cidade como a “morfologia social” do urbano (LEFEBVRE, 2004) se configuram presentes na discussão do envelhecimento populacional. A cidade, enquanto realidade presente, prático-sensível e arquitetônica, cria espacialidades que tanto podem se adequar à realidade do geronte como também oferecer obstáculos à acessibilidade.Enquanto o urbano, realidade social composta das relações que são concebidas dentro de uma espacialidade, também pode ser um obstáculo ou um fator de inclusão social do idoso, a exemplo dos comportamentos discriminatórios. Dessa forma, contextualizar a cidade e o urbano na ótica de Lefebvre com uma perspectiva sobre o envelhecimento, abre espaço para reflexões de como as relações sociais e os comportamentos diante da velhice podem ser engendradas a partir do sensível, do material e vice-versa.

Outra questão da atualidade brasileira, apontada pelo IPEA, é que em aproximadamente duas décadas, as projeções são de que a proporção de homens idosos na População Economicamente Ativa (PEA) masculina estará perto de 10% e a de mulheres idosas em torno de 6%. Assim, em termos de perspectivas de necessidade de geração de empregos nas cidades, o grupo dos indivíduos idosos será um dos mais importantes a pressionar o mercado de trabalho, pelo incremento de aproximadamente 300 mil idosos somados cada ano à PEA de 60 anos e mais. Do total de idosos ativos atualmente, 49% estão alocados no setor serviços, pelo fato da maior parte da população idosa residir em ambiente urbano, sendo que, com relação ao caráter da ocupação, maior parte destes idosos trabalha por conta própria, com características mais empreendedoras. Já as atividades agrícolas, vêm em segundo lugar, representando 39% da atividade dos idosos. (CAMARANO, 2004)

Diante destes dados e com base no contexto atual de saúde, onde é crescente o número de indivíduos que envelhecem de forma eugérica (senescência), pode-se supor que será cada vez maior a quantidade de idosos residentes nas cidades, que se aposentam e continuam no mercado de trabalho, principalmente em atividades que envolvem gestões mais participativas e não apenas a realização de tarefas. De maneira análoga, ter um trabalho, expressão genuinamente humana, mesmo que informal, oportuniza aos indivíduos melhores condições de saúde e qualidade de vida, já que o trabalho apresenta um papel regulador na organização da vida humana.

Apesar dos estudos apontarem para a importância de se manter ativo com o envelhecimento, há de se considerar que os idosos têm poucas oportunidades na cidade para possibilitar uma qualidade de vida urbana nos seus deferentes aspectos. Diante deste contexto, os fenômenos da urbanização e do envelhecimento demográfico, trazem a necessidade de se desenvolver um novo paradigma de gestão social (NORONHA FILHO, 2007), incluindo um melhor planejamento das cidades, de forma a permitir um envelhecimento ativo e saudável.

Referências


BOECHAT, Norberto Serádio. No Envelhecimento: O que Queremos? Rio de Janeiro: Frôntis Editorial, 1999. (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia).

BUSSE. O Mito, História e Ciência do Envelhecimento In:Psiquiatria Geriátrica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992, p.23.

CAMARANO, Ana Amélia. Os Novos Idosos Brasileiros: Muito Além dos 60? Rio de Janeiro: IPEA, 2004.

CANÇADO, F. A. X. Noções Práticas de Geriatria. Belo Horizonte: Coopmed 1994.

CARVALHO FILHO; ALENCAR Apud PAPALÉO. Geriatria – Fundamentos, Clínica e Terapêutica. São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte: Atheneu, 2000, p.01.

CASTELLS, Manuel. A questão urbana. 3ª Edição. São Paulo: Paz e Terra, 2006.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. 23ª Edição. São Paulo: Graal, 2007.

LEFEBVRE, Henry. O Direito à Cidade. 3ª Edição. São Paulo: Centauro Editora, 2004, p.41-49.

LEPARGNEUR, Hubert. Os Desafios do Envelhecimento. O Mundo da Saúde – São Paulo, ano23 v.23 n.4 jul. ago. 1999, p.230-243.

MAGALHÃES, D. N.. A Invenção Social da Velhice. Rio de Janeiro: Edição do autor, 1987

NAHEMOW; POUSADA. Diagnóstico Geriátrico – Um Enfoque Baseado no Estudo de Casos. São Paulo: Organização Andrei Editora, 1987, p.36.

NORONHA FILHO, Miguel Arantes. A Sociedade em Transformação: Velhice um Evento Complexo. Cadernos das Escolas de Negócios, UNIBRASIL, Curitiba, n.05, 2007, p.1-22.

PAPALÉO. Geriatria – Fundamentos, Clínica e Terapêutica.São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte: Atheneu, 2000, p.09-29

PAVARINI; NERI Apud DUARTE; DIOGO. Atendimento Domiciliar – Um Enfoque Gerontológico. São Paulo: Editora Atheneu, 2000, p.53.

PICKLES et all. Fisioterapia na Terceira Idade. 2ª edição. São Paulo: Livraria Santos Editora, 2000.

QUEIROZ, José Ramos de. Velhice sem Solidão. Salvador: Press Color, 1999, p.17.

VERAS; SILVESTRE; KALACHE; RAMOS. O Envelhecimento Populacional Brasileiro e o Setor Saúde. Editora Científica Nacional. Arq geriatr gerontol. n.1, setembro, 1996, p.81-89.

WEBER, Max. Economia e Sociedade. Vol.2, Brasília, Editora UNB, 1999.

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Publicado em by KAREN VALADARES TRIPPO em Mestrando

About KAREN VALADARES TRIPPO

Fisioterapeuta, Docente do Centro Universitário Jorge Amado (UNIJORGE), Mestranda em Desenvolvimento Regional e Urbano pela Universidade Salvador (UNIFACS), Especialista em Gerontologia pela Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

One Response to Envelhecimento populacional no contexto urbano

  1. JORGE GERALDO DE JESUS ROSARIO

    PARABENS,

    PELA SUA INSERÇÃO NO TEMA ALUDIDO, FOI MUITO FELIZ, CONTINUE ASSIM SEMPRE EVOCANDO DADOS E PESQUISA SOBRE ESTA TEMÁTICA…

    JORGE GERALDO
    MESTRANDO PPDRU – 2012

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